____________________________________________________

____________________________________

terça-feira, 6 de março de 2012

Por "Ricado Faria C. T."


Ontem finalizei a restauração desse som antigo. Eu já tinha feito à maioria das peças que ainda faltavam, mas restavam adiados alguns detalhes complexos. Comecei na sexta, logo depois de receber a notícia de que o Felipe tinha sofrido um acidente na escalada do vulcão Villarrica, no Chile. Na véspera, na postagem que ele fez no FB, soube que ele tinha alterado seus planos de viagem. Dei uma risada, junto com uma reflexão – esse menino, que ainda me chamava de “tio Ricardo” com sua voz grossa, estava ganhando o mundo. Antes eu ficava preocupado com os passeios de bicicleta que ele e meu filho faziam aqui por Brasília, ou de tê-los que buscar em uma lan house, de madrugada, depois de uma maratona de games. Mas vem a notícia de alguma coisa séria aconteceu, seguida da busca incessante por informações... e uma grande angústia! Mergulhei nesse trabalho como forma de pautar a espera por novas informações, e, entre um furo aqui e um corte acolá, imaginava o quanto o Felipe iria gostar de ver o resultado. No final da tarde, foi postado que seu corpo havia sido encontrado. Uma tristeza sem fim nos massacrou. Um grande desespero que só foi aliviado pelo desmentido que se seguiu, que encheu todos nós de otimismo. Mesmo assim, ficou a agonia de saber que as buscas haviam sido suspensas graças ao mau tempo. Sua máquina fotográfica foi encontrada, dando uma indicação do percurso do deslizamento. Nela já havia o registro da conquista do cume do vulcão. No sábado pela manhã as condições meteorológicas amainaram. Para todos nós, refeitos de esperança após o choque da véspera, parecia uma questão de tempo até que se desse o resgate. Os meninos ficaram concentrados na casa do Thiago, numa torcida para que isso se desse logo, para tê-lo de volta entre eles, narrando cada detalhe desta aventura. Conforme o tempo vai passando, e vão brotando num ritmo frenético manifestações na página do Felipe, todas repletas de carinho, afeto e fé ... fé que a qualquer momento traga a confirmação de que ele foi encontrado. Quem sabe um pouco arranhado, escoriações, até mesmo alguma fratura... mas não foi assim. E nós, que vínhamos convivendo com a ansiedade da luta contra o tempo, passamos a experimentar todo absurdo que o destino é capaz de criar. Quis brigar com Deus, mas ainda tenho questões em aberto a esse respeito. Entendo que, se ele criou a vida, assim como a morte, não anda com um caderninho controlando o próximo evento de nossas vidas. Quis então brigar com a natureza, na qual o principal corolário é de que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Logo descobri que também é o caminho errado, pois, no amor e no afeto, tudo se cria, tudo se perde, e o que se transforma nem sempre é o que se quer. Resta agora um grande vazio, o vazio do amanhã, absoluto e imutável, mas que hoje é repleto de lembranças, carinho, afeto e muita, muita saudade. Portanto, Felipe, onde quer que você esteja, certamente também está em nós, hoje numa forma de lembranças sempre alegres, mas que doém, dóem infinitamente.
https://www.facebook.com/ricardofct.

Nenhum comentário:

Postar um comentário