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sábado, 24 de março de 2012

Sabotagem é quando você tem que arrumar o quarto, continuar treinando para falar francês em uma conferência, escrever uma tese, revisar um livro, ir à academia, ir à biblioteca, fichar livros, mas vocês está enrolando na cama, vendo the big bang theory, porque parece haver uma regra implícita e universal quanto à fazer nada sabado de manhã.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Minhas linhas agora são cortantes. Cansei de ver o mundo pelos seus olhos. Fica então, insuportável estar tempo demais perto de você. Vou cantarolando sozinha percebendo o efeito que o sol faz no corpo. Se eu chegar perto demais de qualquer ser humano, sua lógica entra na minha cabeça. Se eu chegar demais perto de qualquer música, sua lógica entra na minha cabeça. Se eu chegar perto demais de qualquer leitura, sua lógica entra na minha cabeça. Imagine você, o que os filmes e um cinema podem fazer comigo. É difícil deixar toda dor que vem passar. Acho que nenhum ser humano gosta de doer. Mas, novamente, os sado-ou-mado?-zoquistas, estão aí pra provar o contrário. Mas eu francamente não gosto de doer e nem fazer uma dor alheia. E irritantemente lembranças também são presenças. Temos um mundo inteiro dentro de nós. Presente, passado e futuro se encontram na representação que nossa imaginação é capaz de jogar captando os medos e os desejos que nossos corpos emitem, captando os medos e os desejos que os outros corpos emitem: se eu chegar perto demais de você, sua lógica entra na minha cabeça; se eu chegar perto demais de qualquer música, sua lógica entra na minha cabeça; se eu chegar perto demais de qualquer leitura, sua lógica entra na minha cabeça. Um mundo inteiro de filmes, pessoas, sonhos e cinemas podem fazer qualquer um se perder, pois no final das contas, não existe o "se encontrar", se vamos de acordo com o espaço-tempo que temos. Mas é claro que se ficar tempo e espaço demais em um lugar, você se torna aquele lugar. Somos um bolo de comportamento, o que você coloca na massa, vira bolo; o que você planta, vira árvore. Mas tem que regar. Toda sementinha tem que ser regada para se virar árvore. Toda louça só fica limpa se for lavada; todo quarto só fica organizado, se for arrumado. Para ser e não ser, é preciso ação. Meditação.

domingo, 18 de março de 2012

- é -

- 1 -
Um garotinho chacualha desesperadamente um mapa que tinha criado para tentar encontrar pistas sobre algo que seu pai talvez lhe teria deixado antes de morrer. Seu desespero, seus gritos, seu choro, sua raiva. He just can´t breathe... its too much.. Ele então explode numa crise sem zelo por si mesmo, sem escolha ou retorno a um estado anterior ao que se tornou. Obsessivo e ansioso, uma luta diária que só alimenta ainda mais dor, mais raiva, mais desespero.. Mas ao mesmo tempo, ir atrás daquele mapa, daquelas pistas e escutar todas aquelas histórias parecia-lhe a única chance de prolongar a memória do seu pai em si...

- 2 -
Meu corpo sente sua falta, minhas células precisam da sua memória. Quando você chegava e gritava, interagia com o meu mundo e eu simplesmente me sentia bem. Meu corpo sente falta de você, e por isso eu te liguei. "Porque você me ligou?". Meu corpo sente falta de você, ele me disse, precisava escutar a sua voz. E tudo passou a funcionar bem novamente. Sem mais frio no estômago e mãos geladas, sem mais medo paralisando cada segundo, quando então posso dormir em paz.

- 1 -
Um garotinho chacualha desesperadamente um mapa que tinha criado para tentar encontrar pistas sobre algo que seu pai talvez lhe teria deixado antes de morrer. Seu desespero, seus gritos, seu choro, sua raiva...tudo se espalha, os rasgos, objetos, brinquedos por uma catarse de si mesmo, pelo chão do quarto, pelas laterais da cama. Sua mãe, que então chora na cozinha, vem e lhe acolhe com seus braços, segurando-lhe. "Let it go". Tenta fazer soltar o mapa, tenta pegar-lhe os restos das folhas de papel de suas mãos, tenta soltar-lhe de todo aquele desespero, daquela dor, daquela tarde. "just let it go".

-2-
Lembrava, então que sua irmã te ligava todos os dias antes de dormir. E que então lhe perguntava: "porque você me ligou?"." Meu corpo sente falta de você, ele me disse, e por isso eu te liguei. Agora está tudo bem. Eu posso ir dormir." Como não consegue terminar de ler o seu discurso, suas palavras, um amigo toma-lhe o papel da mão e continua a ler. Lia seu desespero e sua saudade inestimável e incalculável, dor de ter que enterrar sua irmã.

-0-
Podemos até largar o mapa, deixar ir toda crise e objetos rasgados, jogados em meio de uma crise de si mesmo. Podemos deixar ir todo indício de crise. Mas e o sentimento? e quando nos pedem para deixar ir um sentimento? Um sentimento, diferente do mapa, não é objeto palpável. Difícil imaginar como simplesmente deixar ir um sentimento. Soltar. Porque antes, se um sentimento era incômodo, poderia-se ligar e dizer que está com saudade, poderia-se caminhar até aquela pessoa e lhe dar um abraço, passar tempo com ela. Pedir-lhe desculpas, conciliar, se por acaso houve algum desentendimento. Se esforçar para entender o próximo e fazer-lhe sentir-se bem também.. Mas quando isso não é mais possível, porque a vida simplesmente segue, e é assim...

Parece que o sentimento é assim... faz o nosso corpo funcionar de um certo jeito porque tem algo conectado a ele, como o amor à alguém. Sua interação com aquela pessoa é o combustível para o que você é nesse sentimento.. Sem o combustível, seu corpo passa a funcionar diferente, e isso pode não te agradar.... você sente falta... lhe falta o fôlego... lhe falta a lógica das coisas...

Bem é verdade, não podemos ir dormir com raiva de ninguém, amanhã ninguém nunca sabe.. Curto é o momento que eu tenho com você - sempre o foi. Nunca somos a mesma pessoa por muito tempo. As coisas vão mudando, e de um jeito ou de outro, as coisas nos afetam. Essa saudade é tão parte de mim quanto meu estômago.. Mas quero sentir algum bem, apesar de toda essa tristeza..acho que é assim... quando nos cansamos de esbravejar, a gente deixa ir, mais isso não significa que vai passar... também não significa que não vai passar... as coisas nos afetam e a gente muda o tempo todo...

Ninguém nunca tá preparado pra essas coisas, a gente simplesmente segue andando...é aprender sobre si mesmo a todo momento, se esforçar para que seu corpo vibre em bem estar...Às vezes é preciso chacualhar o corpo para que as coisas se soltem da gente. Às vezes é preciso gritar pra soltar toda aquela raiva... se esforçar pra se sentir bem de diferentes maneiras tanto quanto possível ..até que não haja esforço e seu corpo simplesmente é...

Um centro onde se pendula entre as coisas, entre  alegrias e tristezas... entre sentimentos...entre sensações... entre coisas... seria o -é-... uma possível noção zen da existência...

segunda-feira, 12 de março de 2012



Coisas humanas são assim. Quando você é nascido um homem bom, e se torna inevitavelmente mentor e protetor de todos a sua volta. Porque você os ama.

Mas coisas humanas são assim. Seres humanos eventualmente são cheios de falhas. Em meio a tantas decisões, talvez você falhou em cuidar do irmão mais novo, talvez foi incapaz de ajudar o pai alcóolatra, e não pode ajudar sua mãe doente. 

Em meio a tantas decisões, você foi incapaz de ficar com seu irmão mais velho, separar seu pai alcóolatra, teve que tirar sua mãe dali. Mas foi incapaz de lhe salvar a vida. 

Inútil esbravejar contra coisas humanas. Elas levam sua mãe doente, seus amigos em guerra, seu pai em álcool. Separam seu irmão. Mas você é nascido homem bom, por mais que quisesse, por mais que se julgue incapaz de não perdoar, de dizer que não importa, que os tempos são outros, é incapaz de não amar. Quando você é nascido um homem bom, pode esbravejar o quanto quiser, ainda os ama, os ama incansavelmente.


sábado, 10 de março de 2012

me cante uma canção de amor.

Somos todos poças de ilusões.
pois até os homens cantam de amor,
sem, no entanto, amar.

Ilusão é assim
sabor de prosas cantadas,
sabor de boas lembranças.

É como apreciar as estrelas,
se apegar no encanto de algo que não existe.

Não é que eu esteja no gosto do amargo,
para ficar falando de desilusão.
Mas de todas as canções de amor,

até os homens cantam de amor,
sem, no entanto, amar.

...

sexta-feira, 9 de março de 2012

Paris paris paris, cidade de pérolas raras

Devo estar de tpm para me emocionar tanto assim com o canto de passarinhos na minha janela parisiense.  Nostalgia e talvez saudade de minha janela brasileira, de onde minha-terra-tem-palmeiras, de onde escandalosamente cantam os sabiás; os periquitos, os papagaios e as galinhas-da-angola da minha mãe.

Talvez nem seja tanto tpm assim,... escutar um passarinho cantarolando em um jardim em meados de março em Paris é raro. Raro pelo frio de março que normalmente espanta os passarinhos. Raro pelos jardins que normalmente não tem em Paris, que se os tem, não são tão silenciosos assim para se escutar passarinhos. Paris, Paris, Paris. Cidade de pérolas raras.

Amador.

Será que amadurecimento condiz?

Se falo da maestria de driblar nessa vida
tudo que me põe pra baixo,
sem me apegar demais
à tudo que me põe pra cima

o meio termo sem ser indiferente
sem ser passageiro
de um mundo sem destinos.




terça-feira, 6 de março de 2012

Por "Ricado Faria C. T."


Ontem finalizei a restauração desse som antigo. Eu já tinha feito à maioria das peças que ainda faltavam, mas restavam adiados alguns detalhes complexos. Comecei na sexta, logo depois de receber a notícia de que o Felipe tinha sofrido um acidente na escalada do vulcão Villarrica, no Chile. Na véspera, na postagem que ele fez no FB, soube que ele tinha alterado seus planos de viagem. Dei uma risada, junto com uma reflexão – esse menino, que ainda me chamava de “tio Ricardo” com sua voz grossa, estava ganhando o mundo. Antes eu ficava preocupado com os passeios de bicicleta que ele e meu filho faziam aqui por Brasília, ou de tê-los que buscar em uma lan house, de madrugada, depois de uma maratona de games. Mas vem a notícia de alguma coisa séria aconteceu, seguida da busca incessante por informações... e uma grande angústia! Mergulhei nesse trabalho como forma de pautar a espera por novas informações, e, entre um furo aqui e um corte acolá, imaginava o quanto o Felipe iria gostar de ver o resultado. No final da tarde, foi postado que seu corpo havia sido encontrado. Uma tristeza sem fim nos massacrou. Um grande desespero que só foi aliviado pelo desmentido que se seguiu, que encheu todos nós de otimismo. Mesmo assim, ficou a agonia de saber que as buscas haviam sido suspensas graças ao mau tempo. Sua máquina fotográfica foi encontrada, dando uma indicação do percurso do deslizamento. Nela já havia o registro da conquista do cume do vulcão. No sábado pela manhã as condições meteorológicas amainaram. Para todos nós, refeitos de esperança após o choque da véspera, parecia uma questão de tempo até que se desse o resgate. Os meninos ficaram concentrados na casa do Thiago, numa torcida para que isso se desse logo, para tê-lo de volta entre eles, narrando cada detalhe desta aventura. Conforme o tempo vai passando, e vão brotando num ritmo frenético manifestações na página do Felipe, todas repletas de carinho, afeto e fé ... fé que a qualquer momento traga a confirmação de que ele foi encontrado. Quem sabe um pouco arranhado, escoriações, até mesmo alguma fratura... mas não foi assim. E nós, que vínhamos convivendo com a ansiedade da luta contra o tempo, passamos a experimentar todo absurdo que o destino é capaz de criar. Quis brigar com Deus, mas ainda tenho questões em aberto a esse respeito. Entendo que, se ele criou a vida, assim como a morte, não anda com um caderninho controlando o próximo evento de nossas vidas. Quis então brigar com a natureza, na qual o principal corolário é de que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Logo descobri que também é o caminho errado, pois, no amor e no afeto, tudo se cria, tudo se perde, e o que se transforma nem sempre é o que se quer. Resta agora um grande vazio, o vazio do amanhã, absoluto e imutável, mas que hoje é repleto de lembranças, carinho, afeto e muita, muita saudade. Portanto, Felipe, onde quer que você esteja, certamente também está em nós, hoje numa forma de lembranças sempre alegres, mas que doém, dóem infinitamente.
https://www.facebook.com/ricardofct.

Revolta contra a morte de um amigo meu


- Sempre me revolto com minha incapacidade de te acolher. De permanecer em distância. De não chegar mais perto. Pois eis que almejo sua companhia. Mas somos tão... sós, ..sós em nós mesmos, não é mesmo? ... talvez então, que venham as músicas sertanejas,... vamos pegar o primeiro avião, com destino à felicidade.... Vem pra cá, eu vou pra aí. A gente deixa orgulho e falta-de-tempo de lado. Daí, eu já te encontro, não é mesmo?

Pois de tudo que me revolto, creio que perder amigos é o pior. É quando uma realidade se desfaz por completo, e solidão se torna tão real quanto dela falávamos.

Hoje um amigo morreu. Não compreendo exatamente o quanto isso vem me afetando. Era amigo distante, mais amigo de um amigo meu. Sofro pelo sofrimento de meus amigos que perderam um amigo, desses que perderam na verdade, um irmão querido; um irmão muito, mas muito querido. Sofro pela morte de um amigo meu. E não compreendo exatamente o quanto isso vem me afetando.

Tenho pensado e chorado bastante. Não são bem questões ligadas à Deus e à eternidade das coisas. Mas triste é saber que amigos morrem. Que amigos de amigos da gente morrem. E a gente não pode fazer nada.

- Daí revolto-me com a minha incapacidade de poder te acolher. De ter que permanecer à  distância. De não poder chegar perto e te abraçar, te dar aconchego e muito carinho. Mas somos tão... sós, sós em nós mesmos, não é mesmo? Talvez então que venham as músicas sertanejas,... vamos pegar o primeiro avião, com destino à felicidade. Vem pra cá, eu vou pra aí. A gente deixa orgulho e falta-de-tempo de lado. Daí, eu já te encontro, não é mesmo?

Hoje um amigo morreu. Sofro pelo sofrimento de meus amigos que perderam um amigo. Sofro pela morte de um amigo meu. E não compreendo exatamente o quanto isso vem me afetando.