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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Dona Dalma que dizia...

Dona Dalma tinha 104 anos. Quanto será isso dá em batidas do coração? Dona Dalma, mãe, viúva, tia-avó. Antes era Dalminha, Dal, Dada, Dadi... quantos apelidos deveria colecionar, com 104 anos. Dos apelidos, seus autores a maioria já tinha morrido. Dal era viúva faz 30 anos. Com trinta, já tinha 3 filhos. O pequeno falou Dada pela primeira vez, e durante algum tempo papai era papai, mas a mamãe era Dadá. Tia Dadi, seus sobrinhos lhe chamavam, Dadi, seu apelido de infância, veio sem muita explicação, assim chamavam-na  os irmãos, que também já morreram. Dalminha, veterinária, amiga e poeta também, escrevera os versos dos sete mares, misturava vida e filosofia como queijo e goiabada, tornou-se popular na vizinhança, não sei se com os versos, ou se porque cuidava dos bichos de estimação de todo mundo... Tinha 104 anos, mais uma saúde de impressionar, andava pra tudo qualquer lado, tinha um personal pra hidroginástica, tinha uma lucidez incrível, ainda cuidava da própria vida, morava sozinha, mas tinha gente em casa o tempo todo, gostava de cozinhar, "a cozinha reunia gente, vida, companhia"... dizia sempre Dona Dalma,... quanto será ela sabia de história, de vidas... 104 é definitivamente muita vida pra contar...

 "Acho que é uma bora hora para fazer café.." - disse Dona Dalma, olhando para a lua, que era minguante, mas de um minguante amarelo que confundia até poesia, se deixar. "Café ainda agora, pois a vida não há de tardar... sabe - disse, colocando a água pra ferver - do café, na verdade, gosto com leite, isso ainda não mudou, sempre gostei com leite, esfria o que tem de quente, adoça o que tem de adoçar, mas mantém cafeinado, alerta, alegre, café com leite, me rende o dia inteiro, e a noite está só começando... agora venha, vamos ver a lua minguar...

" Sabe, nessa vida, tem que se ter presença". "Presença?  - perguntou-lhe a bisneta, no auge da curiosidade; queria saber de poesia, queria saber de magia e vovó Dalma, ela sabia, ela sabia que sabia ... "Presença é o que te faz respirar, você não respira?" "Claro que respiro", então respira fundo, busca sua presença, e lembra dela o tempo todo, pois é quando você tem presença que as coisas se transformam,o mundo gira devagar, as cores ficam mais coloridas, venha aqui, venha, vamos testar. "Tá bom." ...."Não tô sentindo nada demais".... "Mas claro, é preciso 104 anos de prática..., venha, vamos ver a lua minguante, ...olhe como está bela hoje...,... respire bem devagar.....acalmando, se soltando, se soltando mais... E foi olhando, primeiro com alguma euforia de quem espera alguma coisa, mas foi só ouvindo a voz, voz que mandava respirar, e tudo passava... mas passava bem devagar, a lua, ficou tão grande, ainda que minguante, parecia radiar, e barulhos, quanto de barulhos a noite podia fazer... Ainda hoje me lembro, foi vovó Dalma que me disse, que na vida a gente tem que respirar....

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