Agora já é tarde. Colocou os fones de ouvido. Passara a escutar Asturias de uma coleção de músicas clássicas gentilmente cedida por um grande amigo quando lhe falou seu interesse também por músicas clássicas. Asturias, Isaac Albeniz. E as cortinas se abrem, os personagens se apresentam. Cores se mesclam, sentimentos entram.... Em seguida, Mozart. Gostava de Mozart. Gostava da intensidade com que suas lendas cresceram. Principalmente em torno de sua morte. Como um de seus filmes favoritos mostra como sua composição teria sido causa de sua morte. Alguém que entra por inteiro no que faz. Melhor tomar cuidado com o que se faz. As coisas tomam força própria. Sua vida não é que senão a força de seus atos, aparentemente.
Mas agora já é tarde. Viu-se circulada de todos aqueles sentimentos e suas histórias. Sua força própria que te pede sede e escrita. Agora já era, cedeu na incapacidade de dizer não à roda viva da vida e seu turbilhão de coisas. E o corpo inteiro responde. O corpo inteiro chora. E narrando essa história, posso sentir o seu choro. Escuta-lo, mas não dize-lo. Erro foi o apego ao seus filmes favoritos. Como cada personagem de seu ser é uma representação por inteiro de algo que já foi e que já viu passar. Talvez começara ali, como naqueles filmes que se faz passar a idéia de que a vida é uma história narrada onde fazemos parte do espetáculo. Primeiro precisamos do empenho e da coragem para entender. Realidade ou conto de fadas, tanto faz. Tudo depende do que você vai fazer com tantas informações. Quero dizer, de que adianta saber o que você foi em vidas passadas se descobrir que na verdade antes era inimigo daqueles que hoje você mais ama, se não deixar tudo isso para trás. E o que é pior, do que adianta você assistir a toda uma saga daqueles personagens que precisam ficar mais fortes para conseguir salvar a si, aqueles a quem amam, e todos a sua volta, e ainda achar que isso é apenas uma história. Desse jeito nem é preciso muito para entender como de fato sua vida pode se tornar um ensaio de um espetáculo que jamais se realizará.
Air on a G String. Bach. Deus, que drama que me é colocado diante de seus olhos. Misto de tristeza e desespero que só vai passar se conseguirmos alcançar a próxima nota. Solidão que se guarda pomposamente diante dos seus apegos a sonhos impossíveis e passados, mas que tanto formaram seu ser, tanto impregnados estão que não pode ser soltar diante da mais fácil nota de amor. Mas ahh.. Um ar de tranquilidade e serenidade. Dizem que a tristeza é o fim de um estado de desilusão. E que a partir de então talvez finalmente a gente consegue seguir. Mas realmente essa é uma das músicas mais tristes e belas que conheço. Capaz de ilustrar a mais dramática cena onde os heróis estão perdendo desesperadamente a guerra contra anjos alienígenas, em uma cena em que você, dentro de sua arma e armadura, encontra-se afundada no meio de um lago; e você, sem saída, não tem escolha a não ser se entregar ao turbilhão e lógica das coisas; empenhando-se ao máximo em fazer o seu melhor. Como se pudesse haver razão no desespero e perda de lógica e senso de racionalidade. Como se houvesse lógica e racionalidade em qualquer realidade. Por todos os seus traumas e por tudo em que acredita. Maldita lógica essa em acharmos que é egoísmo pensar que merecemos o melhor. Essa inerente falta de amor próprio presentes aos mundos.
Cello Suite 1. Bach. Sim, o choro ainda está presente. Mas o choro insiste em não cair. Ser humano. Emoções. Instintos. Cores. Sensações. Tudo faz parte. O melhor não agir possível é ver a primavera crescer, simplesmente. Eis a serenidade e tranquilidade mesclada com a tristeza da constatação das coisas, que são como são e não controlamos. Não temos o controle, mas nada impede que otimizemos os resultados assim que entendemos o campo, a lógica e linguagem, montamos a melhor estratégia e seguimos, independente das tempestades. Só espero que seus interesses sejam lícitos e interessantes, no que me resta ainda de ética, não gosto de atrapalhar a vida dos outros.
Toccata and Fugue in D Minor. Bach. Lembro-me dos famosos atendados terroristas. E reconheço minha incapacidade frente a demônios que se passam por anjos. Quero dizer, posso tentar ao meu máximo aprimorar minha intuição e percepção das coisas que sempre terei um pé atrás na incapacidade de lidar com camuflagens. Pois mesmo que a intuição joga com a percepção das coisas, a aparência joga com a lógica. Se aparece um demônio vestido de soldado é mais provável acreditar que ele é um soldado que um demônio. Ainda que tenha uma intuição interna gritando desesperadamente tentando te dizer para que saia correndo imediatamente, pois que é uma bomba e vai explodir. Nessas horas é prudente ter animais por perto, principalmente aqueles treinados para reconhecer o perigo. Um predador normalmente reconhece outro predador. Ou simplesmente qualquer instinto de sobrevivência bem cuidado irá indicar um perigo iminente. A aparência é quando se perdemos na lógica das coisas, e esquecemos do mundo animal em que estamos. Pensamos ser civilizados. E até somos. Só não é prudente esquecer da selva, pois que também o somos.
5a Sinfonia de Beethoven. Sem palavras. Talvez por que é tempo. Salva-me de toda essa perdição de casos e palavras, apegos e encantos e deixai-me tão somente escutar. Magnífico silêncio que se faz pelo simples apreciar do presente que me apresenta suas notas.. como se não houvesse turbilhão de coisas que pudesse ainda segurar... todo apego perde força... talvez sobre apenas algumas memórias... quando por exemplo assistia a janela do carro indo para Goiânia em sua infância, escutando Mozart e Beethoven que seu pai tanto gosta...porque a saudade ainda me é um dernier apego....Finalmente deixara as lágrimas rolar...
Passar bem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário